Arte de Jen Epervary

Os destransicionários: eles eram transgêneros, até não serem mais

Os destransicionários: eles eram transgêneros, até não serem mais.

Escrito por Katie Herzog, em 28 de junho de 2017, em http://www.thestranger.com/features/2017/06/28/25252342/the-detransitioners-they-were-transgender-until-they-werent

(Observação: a posição pessoal do nosso site é crítica à ideia de transgeneridade; assim, expressões como “crianças trans” e “adultos transgêneros” não refletem nosso entendimento).

Inicialmente, Jackie se assumiu para seus amigos e familiares e depois postou uma nota no Facebook. A nota dizia que ela estava adotando um novo pronome e que gostaria que sua comunidade respeitasse isso. No início, parecia um ato de se assumir típico de 2017, uma de muitas publicadas online todos os dias à medida que mais e mais pessoas se assumiam como transgêneras, não-binárias ou queer. Mas o post de Jackie foi diferente. Ela não estava se assumindo trans, ela estava se assumindo detrans.

Jackie está entre uma população emergente de pessoas que transicionaram para um gênero diferente e depois transicionou de volta. Isso desencadeou um debate controverso tanto dentro quanto fora da comunidade trans, com vários lados acusando um ao outro de intolerância, assédio, censura e de desserviço à luta por direitos trans. É um tema tão carregado que várias pessoas que eu entrevistei pediram por anonimato. (Todos os nomes dos destransicionários foram alterados.) Outros se recusaram a serem registrados, com medo de potenciais represálias. Mas, à medida que mais pessoas como Jackie se assumem, o debate apenas se aquece.

Jackie, agora com 25 anos e morando no subúrbio fora de Seattle, tem olhos verdes, cabelo curto e um pouco de pelo facial que ela depila todo dia. Nascida com o sexo feminino, Jackie tinha 17 anos quando começou a ler online sobre questões trans. Naquele momento, ela se identificou profundamente com o que lia. Ela era “moleca” quando criança – o que é agora nomeado como não-conformista de gênero.

Como muitas pessoas trans, Jackie também passou por disforia, que é definido pela Associação Psiquiátrica Americana como “um conflito entre o físico de uma pessoa ou designação de gênero e o gênero em que ele/ela/eles se identificam”. Conhecido como “transtorno de identidade de gênero” até 2013, hoje alguns transativistas argumentam que a disforia de gênero não deveria ser considerada uma desordem psiquiátrica e sim ser vista como uma variação humana normal. (Outros, entretanto, afirmam que um diagnóstico é essencial para o acesso a cuidado de saúde. Muitos planos de seguro que cobrem cirurgia de redesignação podem não pagar pelo procedimento se a disforia de gênero não for considerado uma desordem pela APA). Jackie descreve disforia como uma inquietação em seu corpo, inquietação essa que ela esperava que seria aliviada se o mundo a visse como um homem.

Jackie encontrou dicas online em como se passar por homem – que tipo de roupas vestir, como amarrar seu peito e mudar a forma de andar. Ela cortou seu longo cabelo, mudou de nome e pediu às pessoas que começassem a chamá-la por pronomes masculinos. Levou outros três anos e a aprovação do Ato de Assistência Econômica (no original, Affordable Care Act) para o início de sua terapia hormonal. Anteriormente sem seguro, no âmbito do AAE, ela conseguiu um seguro através do Washington Health Benefit Exchange. Isso acobertou suas injeções de testosterona e, muito provavelmente, teria pago pela sua reconstrução peitoral, comumente chamada de “cirurgia da parte superior” também. Mas oito meses depois, logo quando ela estava sendo preparada para a cirurgia da parte superior, Jackie mudou de ideia.

“Todo mundo diz que gênero é uma construção social, mas nós também agimos como se de alguma forma, gênero fosse uma parte da identidade da pessoa”, ela disse. “Eu comecei a pensar que todo o conceito de transição era um retrocesso”.

Após cinco anos sob testosterona, ela também estava preocupada com sua saúde. Embora os efeitos a longo prazo da terapia hormonal sejam largamente desconhecidos, altas doses de testosterona podem danificar o fígado. Alguns médicos também recomendam histerectomias para homens trans devido a preocupações de que o risco de certos tipos de câncer e infecções podem aumentar. As histerectomias, obviamente, são irreversíveis, assim como reconstrução genital: um pênis que foi construído em uma vagina não pode ser desfeito, nem ser revertido.

Jackie não queria mais tomar hormônios, mas ela não sabia o que esperar. Sua voz ficaria mais fina? Seu pelo facial cairia? O que significaria para sua identidade? Os estudos sobre a destransição são escassos.

A maioria dos prestadores de cuidados de saúde, mesmo aqueles que se especializam em identidade de gênero, tem pouca experiência com a destransição. Lara Hayden, gerente de programa da Hospital Infantil de gênero de Seattle (no original, Seattle Children’s Hospital Gender Clinic), me disse que, embora alguns pacientes deixem de fazer a transição, eles nunca tiveram um paciente que passou por toda a transição e depois transicionou de volta. Ami Kaplan, uma terapeuta em Nova York que trabalhou com clientes transgêneros, variantes de gênero e queer por mais de 20 anos, disse que após duas décadas de prática, ela conhece apenas um cliente que transicionou por completo e depois destransicionou.

“Não acontece com tanta frequência”, Kaplan disse. “Acredito que os médicos têm um pouco de medo de serem rotulados como alguém que controle quem passa ou não por isso, os denominados ‘gate-keepers’”.

Até recentemente, o modelo de ‘gate-keeper’ era padrão para cuidado trans e isso significava que quem poderia ou não mudar seus corpos era de competência dos terapeutas. Ray Blanchard, pesquisador e psicólogo aposentado do sexo em Toronto, que estava entre os primeiros clínicos que defendiam a cirurgia de redesignação do sexo (agora chamado de cirurgia de confirmação de gênero), disse que quando ele começou na década de 1980, os pacientes tiveram que viver pelo gênero que eles se identificavam por dois anos antes de intervenção médica.

“A eles são exigidos apresentar documentação que mostre que eles estavam vivendo ativamente em sua comunidade como o sexo oposto e não apenas pedindo por uma pizza no delivery e colocando um vestido”, Blanchard disse. “Pelos padrões atuais, isso seria inacreditavelmente opressivo”.

Buck Angel, ativista dos direitos humanos e produtor de filmes, transicionou 23 anos atrás, quando a redesignação de gênero era bem mais rara. “Todos os médicos que me atenderam me chamavam de sua cobaia”, Angel disse. “Eu fui a sua primeira cirurgia da parte superior, o primeiro a usar terapia hormonal, o primeiro para meu terapeuta e para cada um de meus médicos”.

Angel estava em terapia por 10 anos quando ele transicionou e diz que isso funcionou para ele. “Eu acredito profundamente no sistema de saúde mental”, ele me disse. “Eu não estou dizendo que todo mundo precisa de 10 anos de terapia, mas para mim foi a escolha certa. E eu nunca olhei para trás. Desde aquele dia, não foi nada além da perfeita escolha para mim”.

Hoje, o padrão de cuidado mudou. De acordo com as diretrizes emitidas pela Associação Profissional Mundial para Saúde Trans (no original, World Professional Association for Trans Health), os prestadores de cuidados de saúde devem pedir uma carta de um terapeuta antes da intervenção médica, mas os próprios terapeutas não são obrigados a ver os clientes por um período específico de tempo. Alguns médicos não exigem carta alguma. “Houve muita raiva no passado em relação ao modelo de gatekeeping“, disse Kaplan. “Então eu acho que os clínicos se inclinam a querer ajudar a transição das pessoas”.

E isso, segundo Jackie, é parte do problema.

“Eu realmente não senti que eu poderia conversar com meus conselheiros sobre destransicionar no modo que eu queria” ela diz, “porque eles tinham visões políticas específicas e eu senti que se eu dissesse que tinha essa crítica sobre todo o conceito de transição, eles pensariam que eu fui cooptada por fundamentalistas transfóbicos ou algo assim”.

Ao invés de conversar com terapeutas, Jackie encontrou uma comunidade online. Ela é agora moderadora do Detransition.info[1], um recurso online para pessoas fazerem perguntas e compartilhar suas experiências.

Jackie e outras pessoas detrans, com que eu falei, disseram que sua comunidade online tem centenas de integrantes, mas ninguém sabe precisamente a porcentagem da população que destransicionou. Não é nem certo quantas pessoas são trans. O Escritório de Censo dos Estados Unidos (no original, United States Census Bureau) não coleta dados sobre identidade de gênero (ou orientação sexual), mas um estudo em 2006 do Williams Institute em UCLA Law estima que há 1.4 milhões de adultos trans nos Estados Unidos ou cerca de 0,6% da população adulta é trans. Isso é o dobro de estimativas anteriores.

De todos os dados, destransicionários representam uma pequeníssima porcentagem de uma população já pequena: um estudo de 50 anos atrás vindo da Suécia descobriu que apenas 2,2% das pessoas que transicionaram, mais tarde, sentem “arrependimento da transição”. (A taxa de pacientes com cirurgias estéticas que não ficaram satisfeitos com a cirurgia no nariz, em comparação, é estimada em cerca de 17%, de acordo com a Revista de Cirurgias Estéticas (no original, Aesthetic Surgery Journal)).

No entanto, tem havido quase uma dúzia de estudos pesquisando a taxa de “desistência” entre crianças identificadas trans – em que, nesse contexto, se referem aos casos de crianças trans que eventualmente se identificam com seu sexo de nascimento.

O pesquisador sobre sexo canadense James Cantor resumiu as descobertas desses estudos em um post no blog[2]: “Apesar das diferenças de país, cultura, década, tempo de acompanhamento e método, todos os estudos chegam uma conclusão similar: apenas algumas crianças trans ainda desejam a transição quando chegam na idade adulta. Na verdade, geralmente eles se descobrem gays ou lésbicas normais”. A taxa exata de desistência varia conforme o estudo em questão, mas de qualquer forma, eles concluem que cerca de 80% das crianças trans eventualmente se identificam com o sexo de nascimento. Alguns acadêmicos e ativistas trans, no entanto, argumentam que esses estudos são falhos, que os pacientes não eram realmente trans e que a porcentagem de desistência não existe.

“O mito da desistência foi promovido por terapeutas reparadores, trolls preocupados e impostores”, uma defensora trans, Brynn Tannehil escreveu no Huffington Post. “Está na hora da figura de 80% de desistência ser posta de lado, da mesma forma que a ciência falsa que vincula o uso de vacinas com autismo”.

Na verdade, alguns dos estudos citados por Cantor tinham amostras com 16 pessoas, com mais de 40 anos e uma delas era uma dissertação de doutorado não publicada. Mas o estudo mais recente, publicado em 2013 no Revista Acadêmica Americana de Psiquiatria Infantil (no original, Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry), acompanhou 127 pacientes adolescentes em uma cínica voltada a identidade de gênero em Amsterdã e descobriu que dois terços desse grupo, no final, identificavam-se com o gênero a qual foram designados ao nascer.

Para os pais de crianças trans, a ideia de desistência pode ser problemática, se não completamente ofensiva. Faz parecer que ser trans é uma escolha. “Nossas crianças sabem muito bem que suas vidas seriam mais fáceis se eles ‘decidirem’ não serem mais trans”, disse Marlo Mack de Seattle, pai de uma criança trans de 9 anos e criador do podcast Como ser uma Garota (no original, How to Be a Girl) sobre criá-la. “E, no entanto, eles persistem, apesar do bullying, da provocação, das ameaças de violência. Para minha filha, a ideia de ela poder escolher não ser uma garota é como escolher que o céu seja verde e a grama, azul. Isso é o quão fixo e inquestionável é da realidade para ela”.

Mack diz que a identidade da filha como menina é firme e tem sido assim desde muito nova. “Ela tem perguntado quais remédios ela poderia tomar para não criar barba que nem o papai desde que tinha 4 anos”, Mack disse. Hoje, sua filha está em uma comunidade trans grande, seus pais lhe apoiam e parece improvável que ela desista. E a maioria das pessoas trans – anedoticamente, pelo menos – estão contentes com a transição. Isso inclui John Otto, um homem de Seattle que começou a transicionar 17 anos atrás. “Realmente foi a decisão certa para mim”, diz Otto. “Eu ainda sinto isso profundamente. Eu tinha 45 anos quando comecei a transicionar – eu realmente tentei ser mulher”. Mas como Jackie e outros destrancionários tem mostrado, transicionar não é necessariamente a escolha certa para todo mundo que sofre de disforia.

Destransição

COMO SER UMA GAROTA Marlo Mack diz, “Para minha filha, a ideia dela poder escolher não ser uma garota é como escolher que o céu seja verde o a grama, azul. Isso é o quanto fixo e inquestionável é a realidade para ela”.

Há várias razões para o qual pessoas destransicionam. Para alguns, é puramente médico. Podem haver preocupações sobre a perda de fertilidade ou complicações da cirurgia ou terapia hormonal. Algumas pessoas trans descobrem ser muito difícil ter uma vida feliz. Tannehill questiona a ideia de que pessoas possam ser “ex-trans”. “Quando as pessoas destrancionam”, ele me disse, “frequentemente é devido ao que a sociedade fez com eles após a transição, forçando-os à destransição”.

Isso pode ser verdade para algumas pessoas detrans – especialmente mulheres trans, que geralmente têm uma passagem mais difícil e que perdem os benefícios inerentes em aparentar serem homens na sociedade – mas isso não foi o caso de Cass, uma lésbica detrans de 31 anos na Califórnia. Cass sofreu bullying severo enquanto criança não-conformista de gênero e diz que transicionar fez sua vida mais fácil. Ela começou a tomar testosterona aos 20 anos e sua comunidade foi bem acolhedora. Ela não teve dificuldade em encontrar emprego ou encontrar pessoas para namorar. “As pessoas eram realmente mais simpáticas comigo após minha transição e elas me viam como um homem, ao invés de uma sapatão butch”, disse Cass.

Três meses antes de Cass começar a tomar testosterona, sua mãe cometeu suicídio. “Transicionar foi uma espécie de estratégia de sobrevivência”, disse Cass. E isso funcionou por um período, mas após um tempo, ela começou a sentir que sua disforia tinha conexões fortes ao trauma referente à morte de sua mãe e a sua misoginia internalizada, mais que uma ligação com sua identidade de gênero. Quando era adolescente, ela tinha sido masculina, butch. “Eu tenho várias mensagens negativas e pesadas sobre o que significa ser uma mulher”, disse Cass. “Eu cheguei ao ponto em que eu não conseguia me ver como mulher sem sentir o horror que outras pessoas sentiam sobre mim. Viver enquanto homem me possibilitou uma espécie de refúgio até eu estar preparada para lidar com tudo isso”.

Quando ela disse que estava pronta, Cass, assim como Jackie, buscou online por conselhos e ela encontrou uma mulher, alguns anos mais velha que ela, que havia destransicionado. A experiência dela era a mesma que a sua – desde o bullying na infância e a misoginia internalizada até a sensação de que transicionar realmente não resolveu sua disforia. Elas se tornaram amigas, conversando por meses e depois, após nove anos vivendo como um homem, Cass se assumiu mulher.

Passou-se quatro anos desde que Cass destransicionou. Ela alterou o registro de gênero em sua carteira de motorista de volta para mulher e pediu para seus amigos e sua família para chamá-la por seu nome de nascimento, mas ela ainda passa por homem, devido à voz profunda e um pouco de cabelo facial.

“Psicologicamente, foi mais difícil destransicionar”, ela disse. Ela compara isso ao processo que foi lidar com o suicídio de sua mãe. “Envolve muito mais em lidar com meu trauma e enfrentar minhas partes autodestrutivas. Não é divertido, mas vale a pena”.

Cass ainda não avisou ao seguro de saúde que a ajudou a passar pela transição sobre sua mudança. De certa forma, ela os culpa por autorizar sua transição, apesar de ser exatamente o que ela queria na época. Ela escreve sobre sua experiência online e em um post ela diz que sua terapeuta favorita “a ajudou a se machucar. Definitivamente, isso não foi a intenção dela, mas ainda foi o que aconteceu. Essa contradição é difícil de lidar e compreender”.

Além de escrever, Cass começou a publicar vídeos no Youtube, onde há um número cada vez maior de confissões de destransicionários. Em um vídeo, que já foi visto cerca de 900.000 vezes, um rapaz reflete sua decisão de destransicionar após viver como uma mulher. Ele é lindo e andrógino, como longos cílios e olhos azuis brilhantes. “Eu não sou como todo garoto”, ele disse. “Eu posso aceitar isso agora”.

Há uma comunidade off-line de destransicionários também: em 2014 e 2015, Cass organizou um workshop sobre destransicionar no Festival de Música de Womyn em Michigan (Minchfest, como é conhecido, que tem uma história litigiosa com a comunidade trans devido a uma política antiga de “mulheres nascidas mulheres”. O Festival fechou em 2015, após 40 anos de existência). Ano passado, Cass e outras 15 mulheres destransicionárias se reuniram em West Coast para um fim de semana de workshops, meditação e compartilhamento de experiências. Cass acredita que foi a primeira reunião dessa espécie.

Cass e outras destransicionárias são abertas sobre suas vidas, porque querem ajudar outras, mas tem acontecido um efeito colateral mal-intencionado: suas histórias foram sequestradas pela Direita.

Em março, Laurie Higgins, uma blogueira do Instituto da Família de Illinois, de Direita, referiu-se a Cass em uma postagem. “A sociedade está com os olhos vendados em um mundo bravo e distópico, cujas vítimas são cada vez mais crianças que um dia contarão suas histórias de arrependimento”, escreveu Higgins, que anteriormente se referiu à homossexualidade como “desviante”, “depravada” e “imoral”. Agora ela estava usando Cass para sua própria agenda, tratando-a como uma vítima do “culto a transgeneridade” (no original, “trans-cult”).

Isso acontece bastante: grupos de Direita e meios de comunicação usam pessoas detrans para promover sua “agenda transfóbica”*, argumentando que sua existência invalida a de todas as pessoas trans. É como a narrativa do “ex-gay”, em que tem sido usada para argumentar que ser gay é uma escolha. Se é uma escolha, pensa-se, as pessoas gays não precisam de direito para casar, adotar ou servir no exército – eles apenas precisam escolher parar com isso. O mesmo vale para pessoas trans.

A história de Cass também foi reutilizada pelo site Breitbart, que compara a transição a ser “mutilado por uma cirurgia de mudança de sexo”. Há consequências da vida real para este tipo de imprensa, especialmente agora, quando os direitos das pessoas trans se tornaram um ponto de centelha político.

Mas não é apenas a Direita que usa destransicionários para esses fins. Parte da comunidade feminista também faz isso: existe um contingente de “feministas radicais” (“radfems” na linguagem de internet [ em inglês ]) que usa histórias como a de Cass para argumentar que transicionar é uma tentativa patriarcal de reforçar estereótipos de gênero e apagar mulheres butch. Algumas feministas radicais (um subconjunto das que são comumente referidas como TERFs ou “feministas radicais exclusionárias de trans”, um termo que é geralmente considerado um insulto àquelas a quem é dirigido) afirmam que o movimento trans moderno é alimentado pelas indústrias farmacêutica e biotecnológica, que enganaram pessoas não-conformistas de gênero – especialmente gays e lésbicas – para que busquem intervenções médicas caríssimas sem nenhum motivo.

A linguagem usada por feministas radicais e pela Direita pode ser surpreendentemente similar: há visões distópicas de um mundo onde as mulheres deixam de existir em ambos os lados e, às vezes, as feministas radicais e conservadores se unem. A Frente de Libertação da Mulher (no original, Women’s Liberation Front – WoLF), uma organização que pretende pressionar em favor do direito ao aborto e outras questões feministas, colaborou com a conservadora Aliança de Política Familiar [no original, Family Policy Alliance] para contornar Gavin Grimm, um adolescente transgênero na Virgínia que está lutando em um tribunal federal pelo direito em usar o banheiro dos meninos na escola.

Isso não se alinha com os princípios de Cass. “Eu tenho muitos problemas com WoLF e o que eles estão fazendo”, disse ela. “Eu não gostava deles antes de começarem a trabalhar com a Direita, agora eu gosto ainda menos”.

Mas alguns princípios do feminismo radical fazem sentido a Cass. A ideologia do feminismo radical é sobre rejeitar estereótipos de gênero, uma filosofia que atrai muitas mulheres destransicionárias que estão reivindicando identidades femininas. Uma dessas é Jane, uma mulher de 53 anos do sul da Califórnia, que viveu como homem trans durante quase 20 anos antes de descobrir os fóruns online de feminismo radical e, logo depois, optar por transicionar de volta. “Eu realmente pensei que era trans”, disse Jane. “Eu realmente acreditei. Cem por cento. Eu até fui demitida do meu trabalho por me assumir trans”.

Jane agora diz que a pressão de seus amigos trans influenciou muito sua decisão em se assumir em primeiro lugar. Ela acha que é uma experiência mais comum do que as pessoas admitem.

A ideia de que o boom de crescimento na população trans se deve à pressão dos pares ou ao contágio social pode ser desconfortável para as pessoas trans e seus defensores; é também uma teoria frequentemente pressionada pela Direita. Na realidade, ninguém sabe exatamente por que tantas pessoas parecem ter se assumido trans ou queer. A escritora e “mulher trans”, Julia Serano, argumenta em um ensaio no Medium que isso se deve à mudança do antigo sistema do gate-keeping de cuidado de saúde trans para o modelo mais recente que “leva as experiências e preocupações das pessoas trans com seriedade”.

O aumento da visibilidade e da aceitação social também são explicações lógicas para o crescimento percebido na população trans: mais pessoas estão conscientes de que é uma opção agora. Mas, com o estudo publicado este ano nas notas da Revista de Saúde Infanto-Juvenil (no original, Journal of Adolescent Health), os pais começaram a relatar “um rápido aparecimento de disforia de gênero” em adolescentes que são “parte de um grupo onde vários ou mesmo todos os amigos desenvolveram disforia de gênero e se assumiram como transgênero durante o mesmo período”. Jesse, um jovem de 16 anos em Portland, que prefere o pronome “eles”, me disse que cinco crianças em sua aula do oitavo ano se assumiram como trans naquele ano.

“A questão da pressão dos pares surge muito”, disse Lara Hayden, do Hospital Infantil de Seattle, “mas sempre pelos pais”. Uma das cinco clínicas que servem a “jovens trans” na nação, a Clínica de gênero para crianças de Seattle oferece cuidados de saúde mental, bem como bloqueadores de hormônios (para atrasar o início da puberdade) e hormônios como testosterona e estrogênio para aqueles que escolheram intervenção médica (que nem todas as pessoas trans escolhem).

O protocolo é muito diferente para pacientes jovens e pacientes adultos em no Hospital Infantil de Seattle: para pacientes com mais de 18 anos (a clínica de gênero atende pessoas até 21), a decisão é, em última análise, do indivíduo. Mas para as crianças, é um processo contínuo envolvendo os pacientes, os provedores de cuidados de saúde, o seguro e os pais, alguns dos quais se preocupam que seus filhos estejam apenas passando por uma fase. Como um pai de uma criança recentemente identificada como “trans” me disse, “Nós chamamos essa fase de ‘trendsgender’”, isto é, uma tendência devido a toda questão de gênero.

Para alguns transativistas, a teoria do contágio social é apenas uma desculpa para questionar a autenticidade de pessoas trans e de negá-los acesso a cuidados de saúde e outros direitos. “Sempre houve pessoas transgêneros. Estamos agora mais visíveis”, disse Tannehill. “Há muito mais pessoas homossexuais agora também. Isso significa que há algum tipo de contágio social de homossexualidade?”

Mike Pence provavelmente argumentaria que sim, mas a ira de Tannehill parece dirigida tanto a feministas radicais como a conservadores.

“A parte da comunidade de feministas radicais que é anti-trans é muito parecida com a Direita”, disse ela. “São pessoas assustadoras, malvadas, são anônimas e não pensam que temos o direito de existir”.

Após a transição, algumas pessoas percebem que sua disforia não é corrigida ou resolvida, mesmo que elas passem de forma crível com o gênero desejado socialmente. Isso foi verdade tanto para Cass e Jackie, ambas jovens de 25 anos de idade que vivem fora de Seattle. Também era verdade para Ryan, um homem destransionário que descobriu outra forma mais inesperada de lidar com sua disforia.

Ryan tem uma cabeça cheia de cabelos escuros e encaracolados e um rosto redondo sem rastro de barba. Ele tem 43 anos, mas pode passar facilmente por 23, talvez até mais jovem. “É um pouco frustrante”, disse Ryan. “As pessoas sempre dizem o quão jovem eu pareço, mas isso é uma lembrança constante da minha história”.

Transicionar – e destransicionar – é uma experiência diferente para homens e mulheres. Hormonalmente, é inverso: a testosterona geralmente amplia seus ombros, diminui a gordura corporal e faz você se interessar por sexo. Pode fazer crescer cabelo em locais que não havia antes, ao mesmo tempo em que faz você ficar calvo. O estrogênio, ao contrário, torna você mais emocional, diminui a libido e pode adiar ou, até mesmo, reverter a calvície. No caso de Ryan, os hormônios o fizeram parecer jovem, mesmo depois de parar de tomá-los.

Ryan era um garoto brilhante. Na quarta série, ele estava cursando matemática de Ensino Médio, mas, enquanto sua inteligência ganhava o louvor dos adultos, as crianças faziam bullying com ele. Ele sofreu bullying sem piedade e durante esse período ele fantasiava sobre se tornar uma menina. Se ele fosse uma menina, ele pensou, talvez ele não fosse intimidado por ser fraco.

Conforme Ryan cresceu, a fantasia evoluiu. Utilizando a internet, encontrou fóruns online trans. As dificuldades que outras pessoas compartilhavam refletiam as suas. Em seu segundo ano na faculdade, ele estava pronto.

“Isso parecia ser o que eu era”, disse ele. “Foi também o que minha comunidade disse. Apenas aparentava como uma verdade essencial. Eu sabia que era trans”.

Ryan foi a um psicólogo, que rapidamente o encaminhou para terapia hormonal. Aos 19 anos, a fantasia de Ryan – algo que ele nunca achou possível quando criança – estava se tornando realidade. Ele começou a tomar hormônios e, entre seus vinte anos de idade, ele teve uma cirurgia de redesignação de sexo.

Ainda assim, algo não pareceu certo. Ryan estava em altas doses de estrogênio e sentiu-se confuso, incapaz de pensar. Ele estava em constante estado de tensão e sua disforia também não se acabou – apenas “se moveu”. Suas mãos ainda pareciam grandes, sua testa muito masculina. Mudou-se para uma nova cidade onde pensou que seria mais provável que a disforia passasse. Isso também não funcionou. Ele estava muito angustiado.

Ao longo dos anos, Ryan tentou diferentes terapias, incluindo yoga e massagem, mas os efeitos foram sempre temporários. E depois, há alguns anos, descobriu a Biodanza, uma espécie de dança livre de êxtase criada por um antropólogo chileno na década de 1960. Biodanza exigiu que Ryan ouvisse seus instintos e se conectasse fisicamente com outras pessoas. “Gradualmente,” ele disse, “meu corpo começou a descongelar”. Ele começou a ir à terapia e então começou a experimentar parar de tomar hormônios, apenas para ver como se sentia. Logo sua ansiedade começou a se dissipar e o estado de confusão que ele sentia desde os 19 anos começou a diminuir. Ele começou a tomar suplementos de testosterona e, por um tempo, sentiu-se eufórico.

A euforia desapareceu depois de alguns meses, mas Ryan decidiu continuar sua destransição. Ele chegou à conclusão de que a disforia é normal – até mesmo, comum – e ele encontrou novas maneiras de lidar com isso: movimento, terapia e aceitar de que ele não pode controlar a maneira como o mundo o vê. Ninguém pode.

Ryan sabe que a experiência de todos é diferente, mas para ele, mudar seu corpo não era a maneira mais eficaz de lidar com a sua disforia.

“Você pode mudar seu corpo através de hormônios ou pela cirurgia”, disse ele, “mas, a menos que você o aceite, a disforia não desaparecerá”. Ryan nunca recuperará seu antigo corpo de volta – há algumas coisas que não podem ser revertidas – mas ele está aprendendo a viver com isso.

Jackie também está aprendendo a viver com o dela. “Em vez de me concentrar em como o meu corpo parece”, disse ela, “eu me concentro no que pode fazer”. Agora ela tenta permanecer ativa e passa menos tempo online. “Não me entenda mal, eu ainda adoro Tumblr, mas passar muito tempo online e não me mover bastante me faz sentir mais desconectada com meu corpo”. É um tema comum entre pessoas destransicionárias: o exercício, o movimento e a reconexão com seus corpos os faz sentir melhor sobre suas vidas.

Todas as pessoas destransicionárias com quem eu falei a fim de conhecer suas decisões são controversas. Ainda assim, seus amigos e familiares têm sido amplamente solidários através de mudanças de pronomes, terapia hormonal, cirurgias e, mais tarde, a decisão de voltar atrás. Na maior parte das vezes, são estranhos que dificultam sua vida, seja silenciando-os ou cooptando-os para seu próprio uso.

“Há um número significativo de pessoas trans e trans-ally que acham o que eu e outras pessoas que destransicionaram temos a dizer são ameaçadoras ou perigosas e eles preferem não falar sobre”, disse Cass. “As pessoas trans costumam tratar as pessoas destransicionárias mais como símbolos do que temem, ao invés de como pessoas reais”.

Mas essa conversa será inevitável no futuro, ela acrescenta. “Há tantas pessoas em transição no momento e você não pode realmente prever o que vai acontecer. Eu não sei se precisamos de mais gatekeeping, mas precisamos de mais discussões dentro da comunidade trans. Nós temos que ser capazes de resolver essas coisas”.

Ainda assim, apesar de tudo o que ela passou – apesar dos hormônios e da barba que ela não consegue se livrar e apesar de se assumir duas vezes – Cass não se arrepende por sua transição. “É apenas parte da minha história”, disse ela. “Viver como homem me fez a mulher que sou hoje”.

[1] Link no texto https://detransinfo.tumblr.com/

[2] Link do texto no http://www.sexologytoday.org/2016/01/do-trans-kids-stay-trans-when-they-grow_99.html

*A expressão está entre aspas porque é uma forma de silenciar a crítica à transgeneridade. Parta esta da direita ou da esquerda, é uma crítica importante a ser feita, particularmente quando estão em jogo a saúde física e psicológica de crianças, adolescentes e adultos jovens.

(O texto foi editado para retirar o parágrafo que demonizava a campanha norte-americana Just Want Privacy, que visa a proteger meninas e mulheres do assédio sexual em banheiros).

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